"Este senhor tem problemas psicológicos." Disse a Dr.ª Joana Guimarães para a enfermeira. Não me recomendou que consultasse um psiquiatra ou um psicólogo. Aliás, anos antes, durante alguns anos, consultei um psiquiatra e tinha dele um diagnóstico de depressão. Depressão que é, aprendi mais tarde, sintoma de esclerose múltipla. Eu tinha esclerose múltipla havia 30 anos. 

Todos os doentes com esclerose múltipla têm "problemas psicológicos". Os sintomas são disparados por um trauma emocional. E por trás do trauma há uma agressão. Que pode ser "só" psicológica.

Eu não sabia ainda da relação entre esclerose múltipla e depressão e por isso ainda não tinha falado da minha depressão à Dr.ª Joana Guimarães.

É verdade que os "problemas psicológicos" costumam ser invocados pelos médicos na falta de melhor diagnóstico.

Mas isto foi dito numa conversa de corredor. Na mesma altura que me disse que eu tinha mesmo esclerose múltipla. E foi dito da mesma forma que podia ter dito "este senhor tem um parafuso a menos".

O diagnóstico demorou imenso tempo a ser concluído. 5 meses. Já tinha feito todos os exames e o tempo passava sem que me dissessem nada. E eu estava-me a sentir pior. Estava ansioso. A ansiedade numa pessoa com esclerose múltipla pode ter estas consequências. Perguntei à Dr.ª Joana Guimarães se não se podia fazer nada. Embora ela não soubesse que doença inflamatória desmielinizante eu tinha, já sabia que eu tinha uma doença inflamatória desmielinizante. E ela receitou-me um corticóide na veia durante 5 dias. Numa enfermaria do hospital. Começando numa segunda e terminando numa sexta, fui a certa hora a essa enfermaria e permaneci nela durante uma ou duas horas. Estava-me a sentir bem com este tratamento. Na quarta ou na quinta mudaram-me de enfermaria. Normalmente ficava numa enfermaria onde havia mais gente a ser atendida. Aparentemente faziam o mesmo que eu, mas nunca falei com ninguém para saber o que tinham e o que faziam. Naquele dia na outra enfermaria no início não havia ninguém. Depois entrou um senhor, não sei se mais novo ou mais velho do que eu, numa cadeira de rodas eléctrica. Estive o tempo todo a observá-lo sem falar com ele. Mas, no fim, antes de me vir embora, achei que lhe devia perguntar o que ele tinha. Esclerose múltipla! E continuamos a falar até sermos interrompidos. Por uma enfermeira, jovem, aflita, que se dirigiu a mim com um "Não fique aflito!"

Eu não estava aflito nem nada. Aflita estava ela. Uma miúda a interromper uma conversa entre adultos. Ela também era adulta, mas nós éramos mais velhos. Ah, ela era uma profissional de saúde. Uma profissional de saúde aflita por um doente ter acabado de saber de outro que a doença que possivelmente tem pode conduzi-lo a uma cadeira de rodas eléctrica. O que me disse depois foi pura propaganda médica, isto é, farmacêutica.

Que eu não ia ficar como ele porque ele tinha ficado doente há muito tempo quando ainda não havia os medicamentos que agora havia para tratar a nossa doença. 

Eu ainda não sabia se tinha a doença dele. Ela sabia? E sabia há quanto tempo eu tinha a minha? Achava que só se tem uma doença quando ela é diagnosticada? Em todo o caso era mentira que eu não pudesse vir a precisar de uma cadeira de rodas eléctrica.

Eu percebi que a cultura daquela jovem era a cultura dominante por ali. Percebi o silêncio dos médicos e que quando o rompem por vezes é para mentir. 

O Dr. António Vilarinho mentiu-me quando me disse que no caso de eu ter esclerose múltipla eu teria tratamento.

Eu não queria esta piedade. Continuo a não querer. 

E as palavras da enfermeira derrubaram-me. Saí dalí a andar pior do que andava quando cheguei ali a primeira vez para iniciar o tratamento. Melhor que tivesse estado calada. Mais corticóide no dia seguinte não me deixou melhor. E no domingo seguinte vi-me pela primeira vez com falta de equilíbrio e com problemas de visão. Parecia que estava com fotofobia. Depois passou.

Contei o sucedido à Dr.ª Joana Guimarães. As palavras da enfermeira tinham-me feito mal. Da jovem enfermeira. Sim, ela também contou à outra enfermeira que era mais velha que eu tinha-me dado mal com o corticóide, mas que não tinha sido por causa do corticóide. E eu fiquei com pena de ela não ter dito porque é que tinha sido na sua opinião. Queria saber. Foi porque eu tinha "problemas psicológicos"?! 

Depois a enfermeira mais velha quando me fez um inquérito quando chegou ao equilíbrio se o tinha ou não tinha eu respondi que não tinha falta dele e mesmo assim ela fez questão de colocar no inquérito que eu tinha falta dele.

E depois deste incidente com a jovem enfermeira comecei a perceber que as palavras podiam ser mais fortes do que o mais forte dos medicamentos. O que me fez mal foram as palavras da jovem enfermeira e as circunstâncias em que elas foram ditas. A falta de palavras por parte da Dr.ª Joana Guimarães e antes dela, do Dr. António Vilarinho. Não adianta não falar quando é preciso falar. 



Comentários

Mensagens populares deste blogue