A "comprovação científica" não me faz falta nenhuma. O dinheiro está-me a fazer alguma falta para me tratar e curar. Nem é o que parece ser. Tanta coisa que há com comprovação científica e que, no entanto, não tem a "comprovação científica" deles. É algo muito específico. Uma burocracia. Quando até há comprovação científica, uma redundância. Supérflua. Não ética, Supérflua, não interessa ao negócio. Mas é não ética.
É com base nesta "comprovação científica" que se recusa tratar e curar.
Por vezes até há a tal "comprovação científica" deles e eles dizem que não há (ou não tem) "comprovação científica".
Percebi que os melhores tratamentos não têm "comprovação científica". Os melhores de todos não são sequer "científicos".
"Comprovação científica" é uma grosseria. É negação de tratamento e cura.
O medicamento que eu tomei tinha "comprovação científica". Mas não para Esclerose Múltipla Progressiva Secundária.
Como é que sabe que tem Esclerose Múltipla Progressiva Secundária?" Chegaram a perguntar-me. Aprendi. No princípio não sabia, mas depois aprendi. Só tive que aprender o que era Esclerose Múltipla Progressiva Secundária. Os sintomas, melhor do que ninguém, sempre soube que tinha os que tinha. Ou tive. É verdade que precisei de tempo para me lembrar dos antigos e de aprender a relacioná-los com a doença. Na minha primeira consulta de neurologia queixei-me de um conjunto de sintomas dos quais os mais antigos tinham ocorrido havia 20 anos. Só mais tarde percebi que a doença tinha dado os seus primeiros sinais 10 anos antes do que eu inicialmente supunha. Mas parecia que, não sendo médico, não podia saber. Ou a médica não me tendo dito que eu tinha Esclerose Múltipla Progressiva Secundária, eu não podia saber que a tinha. E deu-se o caricato do médico fisiatra me explicar o que era a Esclerose Múltipla Remitente Recorrente, coisa que a médica neurologista sequer tinha feito, eu tê-lo interrompido para lhe dizer que não tinha surtos e ele não me dar crédito.
Mas aquele medicamento tinha "comprovação científica" de quê?! Estava "comprovado cientificamente" que ele fazia o quê?! Diziam que atrasava a progressão da doença (em doentes com Esclerose Múltipla Remitente Recorrente). Propaganda! Que, nos testes, o grupo que o tomou teve 30% menos surtos que o grupo que tomou placebo. E?! E?! E o que isso interessa quando o medicamento tem efeitos adversos correntes (mão do tipo dos que ocorrem em 1 doente em cada 10, mas do tipo que ocorrem em 10 doentes em cada 10)?!
O que valem os resultados de um teste duplo-cego controlado com placebo de um medicamento em que todos os doentes sofrem efeitos adversos?!
Para a minha decisáo de deixar de tomar esse medicamento foi relevante saber de um médico neurologista investigador e professor universitário que os medicamentos como o que eu tomei, não fazem nada e podem até fazer até o inverso do que era suposto fazerem, mesmo naqueles para os quais a sua utilização é suportada por "comprovação científica". Isto é, nem para os doentes com Esclerose Múltipla Remitente Recorrente ele era bom. Ou é bom porque ele ainda não foi retirado do mercado, continua a ser comprado e utilizado no SNS.
Entretanto as palavras deste médico foram censuradas. A entrevista onde ele as proferiu ainda circula por aí, mas estas palavras que eu lhe ouvi, sumiram. Não se pode falar. Não se pode prejudicar o negócio. Mesmo se se defender os interesses dos doentes. E dos contribuintes. Mas interesses de doentes e de contribuintes não interessam.
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