"O medicamento não lhe fez mal nenhum." Disse-me a Dr.ª. Fez. Enquanto o tomei, fez. Sabia-se que ia fazer. E pode ter sido responsável pelo agravamento da minha incapacidade que se verificou durante o tempo que o tomei. Segundo palavras que ouvi ao Dr. Cícero Coimbra. (Se ainda não falei nele, irei falar mais adiante.) (Isto é para não dizerem que eu que não sou médico, estou a inventar.) E enquanto o tomei, não tomei outra coisa qualquer que me poderia ter feito melhor. E é certo que a Dr.ª Joana Guimarães não me saberia prescrever nada melhor. Nem me reencaminhar para alguém que o fizesse.
Alguns problemas que mencionei anteriormente eu já tinha resolvido. Com alguma ajuda de um terapeuta complementar. Para a insónia troquei o Lexotan por infusões de ervas ou por comprimidos feitos a partir das mesmas. Para a obstipação comecei a usar bicarbonato de sódio. E para a emergência urinária, uma agulha de acupunctura em um minuto resolveu-me o problema. Uma vez contei à Dr.ª que fazia acupunctura. Tinha alunas a assistir à consulta, ficou embaraçada e, mais para elas do que para mim, disse "Nós não podemos proibí-los de fazer estas coisas!" A rir-se. Com ironia.
Mas ela, antes, tinha-me perguntado como é que eu me sentia sem o medicamento. Devo-lhe ter falado no enorme alívio da fadiga. (A fadiga de que se queixa uma pessoa que tem esclerose múltipla não é a fadiga de que se queixa uma pessoa que não tem esta doença!) Eu não conseguia fazer nada. Vivia sózinho como ainda vivo e cuidava de mim. Só. Durante o tempo em que fiz fisioterapia, vivia para fazer fisioterapia três vezes por semana. Estava a levar uma vida pouco satisfatória. Deprimente. E falei-lhe na espasticidade. "A espasticidade desapareceu!"
Ela costumava fustigar-me por eu não fazer isto ou fazer aquilo. Por ter desistido da fisioterapia. Por não fazer natação. "Precisava de estar muito melhor do que estou para ser capaz de fazer natação!" Por ter deixado de tomar certo medicamento sem lhe dizer nada. O medicamento para a espasticidade! E eu tinha ficado FODIDO comigo mesmo por ter demorado uma semana para deixar de o tomar. Era bom para dormir, mas era pior do que a espasticidade. Desde cedo começou a perguntar-me pela espasticidade. E antes que eu percebesse o que era a espasticidade no meio do mal estar provocado pela doença e pelo medicamento e o mal que ela me fazia ela já me estava a prescrever o tal medicamento para a espasticidade. A espasticidade é uma contracção involuntária dos músculos. Não é violenta e dolorosa como a cãimbra. Aquele medicamento deixava-me demasiado relaxado. De uma forma que me deixava extremamente inseguro ao andar. Quando depois concluí a minha avaliação sobre a espasticidade pude-lhe explicar que ela avisava-me sobre o limite da minha capacidade de andar. E que eu próprio prestando-lhe atenção e também não lhe ligando demasiado, conseguia reduzi-la um pouco. E fi-lo em frente de uma técnica que ela trouxe para a consulta para me ver que concordou comigo. Isto é, sabia-se que era assim.
Pois não se podia mesmo dizer que o medicamento (o Betaferon) não me tinha feito mal nenhum. Tinha-lhe acabado de falar sobre isso. E isto decidiu-me a não a consultar mais.
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