Abandonei a fisioterapia por vários motivos. Eu não me estava a sentir bem com ela. Com ela eu só ficava mais cansado. (Durante os dois anos seguintes ao diagnóstico em que eu fiz tratamento convencional, não se verificou qualquer reversão de sintomas. Pelo contrário, estes agravaram-se um pouco.) Não foi a Dr.ª Joana Guimarães que me recomendou a fisioterapia, foi a enfermeira velha, mas ela teve conhecimento que eu a fazia e não a reprovou e depois de eu a abandonar ainda me sugeriu que eu fizesse natação. A Dr.ª, pese embora me visse regularmente, não sabia mesmo como eu estava. E era em certo sentido a pessoa mais avalizada para informar sobre a minha saúde. Não sei se teve algum contacto com o médico fisiatra da clínica de fisioterapia. Este também me quis impingir um medicamento, possivelmente o mesmo, para a espasticidade. Uma vez pôs-se a explicar-me como era a esclerose múltipla, mas só me explicou o que era a esclerose múltipla remitente recorrente (que eu já não tinha). E eu que já começava a saber alguma coisa sobre ela com o convívio com outros colegas de doença atalhei-o e disse-lhe que já não tinha surtos. Ele não percebeu e continuou. Devia saber pouco. Pois havia este erro. Eu estava a tomar um medicamento para esclerose múltipla remitente recorrente que já não tinha, estava a fazer fisioterapia que supostamente ia-me ajudar a reverter os sintomas (e se eles não revertiam o tal medicamento da espasticidade devia resolver o problema). Eu não estava então tão mal como estava. Já o Dr. António Vilarinho me tinha dito que eu não devia parar, devia continuar a trabalhar... Eu não lhe disse que estava aposentado compulsivamente e que havia um recurso a decorrer no tribunal há anos. Não lhe disse porque ele estava a querer correr comigo do seu consultório. Aquilo não foi mais do que um lugar-comum. O que costuma dizer a quem tem a doença pela primeira vez e mais provavelmente tem esclerose múltipla remitente-recorrente. Aliás, já me tinha dito que havai tratamento. Para esta esclerose havia, sim, tratamento convencional. Mas isto foi pouco conforme com o que ele começou por dizer: "Então só agora vem ao médico!" E com o eu, na primeira consulta, me ter queixado de sintomas ocorridos 20 anos atrás. (Com 20 anos de doença e eu até tinha 30, é mais provável ter-se já esclerose múltipla progressiva secundária do que continuar a ter-se remitente recorrente.) A Dr.ª Joana Guimarães nunca me perguntou pela minha fadiga. (Para muitos a fadiga é somente o sintoma mais incapacitante.) Ela só se interessava em ver as minhas pernas. Uma vez queixei-me de problemas cognitivos. Perguntei-lhe se era possivel uma avaliação. Não sei que pertinência isso tinha, mas ela não me disse que não era possível ou que não era pertinente. Simplesmente essa avaliação nunca ocorreu. E cheguei a insistir mais tarde nela. Uma vez pretendi ir para fora e para isso desmarquei atempadamente uma sessão de fisioterapia. Logo recebi um telegrama do hospital a pedir-me que comparecesse no hospital em certo serviço num dia em que pretendia estar fora. Desconfiei. Liguei para o serviço em causa. Disseram-me que não convocavam ninguém por telegrama. Não me tinham convocado nem me iam convocar. Para nada. Alguma informação saiu da clínica de fisioterapia e alguém resolveu brincar com ela. Para mim isto não era novidade. Por isso desconfiei. Dei conhecimento do caso à Dr.ª Joana Guimarães. Um pouco mais tarde ela também resolveu brincar comigo. À minha frente, na presença das alunas, esteve a fazer de conta que falava ao telefone com uma colega. Sobre a tal avaliação de problemas cognitivos. Bem, a minha doença tinha começado por aí. 30 anos antes. E deu cobertura aos brincalhões do telegrama. Mas o que me decidiu a abandonar rapidamente a fisioterapia foi o assédio. Moral, claro. Um médico que por lá andava a tratar-se, tinha parkinson, assediava-me. Eu não o conhecia de nenhum outro lado. Também nunca lhe tinha confidenciado nada sobre a minha vida privada ou profissional. E ele estava a intrometer-se na minha vida privada e profissional. Depois foi o próprio fisiotrapeuta que me abordou sobre algo que não tinha nada a ver, nem directa, nem indirectamente, com a fisioterapia. Obviamente foi instruído por alguém para me fazer aquela abordagem. Mais tarde tive confirmação que dele saíram informações sobre mim para a polícia. Ainda durante o diagnóstico eu percebi que não estava em condições para regressar ao trabalho, mas havia quem pensasse o contrário, talvez com algum suporte dado pela Dr.ª Joana Guimarães, e não se inibisse de me (continuar a) assediar.

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