Não fui eu que marquei a minha primeira consulta na clínica de neuro-cirurgia, mas foi melhor que a clínica fosse de neuro-cirurgia do que de ortopedia e eles aceitaram fazer uma primeira consulta de neurologia que era o que eu precisava. Não tenho nada a dizer da minha primeira consulta de neurologia. De mal, subentenda-se. Quem me atendeu foi bastante neutro, não se deteve em nada surpéfluo e, no fim, mandou-me fazer o exame certo. A segunda já fui eu e foi a consequência da primeira. Era suposto voltar lá com o exame. Pelo menos não me foi dito para não voltar lá ou para levar o exame a outro lado. Ora, para levar o exame a outro lado foi o que me foi dito na segunda consulta, sendo o outro lado o médico de família a quem eu nunca fui, e sem me explicarem porque é que eu tinha ainda que ir a um clínico geral - dois anos tinham ido a um clínico geral e ele achou que eu era hipocondríaco - já que a doença era neurológica e eu devia fazer mais exames num hospital. Se era para ir a outro lado deviam-me ter dito antes para poupar tempo. 

Naquela altura eu já acordava mal e andava mal até que me deitava. E já andava um bom tempo assim para eu perceber que aquilo não estava a passar. Se tivesse esclerose múltipla remitente recorrente como depois, não sei como, me diagnosticaram, eu estaria com um surto e um surto e um surto é tratado com urgência com corticóides na veia. Já não tendo, o caso era mais grave. A terceira consulta foi mandada marcar pelo médico da segunda. A dada altura, face à conversa parva do homem - explicava-me, não sei para quê, que havia neurologia e neuro-cirurgia - só lhe perguntei se naquela clínica não havia nenhum médico neurologista. A consulta começou mal e foi ele que a começou mal e depois continuou mal pelas mãos dele. A primeira coisa que me disse foi: "Então só agora é que vem ao médico!" Comecei a duvidar se estava a ser atendido pela mesma pessoa que me tinha atendido antes. Não era o mesmo estilo. E eu já tinha dito que tinha consultado um ortopedista. Omiti o clínico geral por não ter achado relevante. Pois não era verdade. Até tinha ido a esse clínico geral e ele não tinha visto nada. Ainda não estava tão mal como estava então. Mas não interessava nada se era verdade ou não. Eu tinha-lhe dado o exame que tinha feito e só queria saber o que tinha. Tinha já esperado tempo suficiente para isso. Disse-lhe qualquer coisa sem interesse só para ele passar adiante. Leu-me a parte do relatório que interessava: "doença inflamatória desmielinizante".E parece que achou que eu estava ali só para ele me ler o que estava no relatório como se eu não soubesse ler. Perguntei-lhe: "O quê?" E ele repetiu: "doença inflamatória desmielinizante". Mas num tom de voz quase inaudível. Tive que lhe arrancar mais alguma coisa a ferros que ele estava mortinho para terminar com o "Agora pega nisto e vai ao seu médico de família que..."

Aquele "Então só agora vem ao médico!" irritou-me. Ali, naquela consulta, era puro lixo. Ele era neuro-cirurgião. Quando me lembrei da consulta com o clínico geral também me lembrei que, depois dessa consulta, fiz vários exames entre os quais uma micro-radiografia e que o radiologista responsável no seu relatório escreveu que eu sofria do coração. O clínico geral não percebeu a graça, melhor, a gracinha, mas percebeu que se tratava de um crime de fraude. E ali naquela segunda consulta de neurologia numa clínica de neuro-cirurgia ocorreu-me que poderia estar perante mais do mesmo. Que aquele "Então só agora vem ao médico!" podia ser mais do mesmo.

Independentemente, a partir do momento em que o Dr. António Vilarinho leu que o exame apontava para uma doença inflamatória desmielinizante, eventualmente esclerose múltipla, deveria saber que um dos sintomas da doença é a irritabilidade e das consequências nefastas de qualquer irritação em quem tem a doença e que, em todo o caso, ninguém se irrita se não for irritado.

Não sei se me expliquei bem. Eu tinha dificuldade em andar. Quando irritado, tinha mais dificuldade em andar. Vendo-me com mais dificuldade em andar, ficava mais irritado.

Teria sido bom se tivesse tido um médico que me tivesse explicado isto. Por exemplo.

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