Há dois anos fui ao médico. Foi a última vez que fui ao médico. A um médico convencional! Precisava de um atestado médico e só os médicos convencionais estão autorizados a passar atestados médicos. Precisava de um atestado médico actualizado - disseram-me que tinha que ser actualizado - para pedir ao delegado de saúde (que também é médico) um atestado médico de incapacidade multiusos para apresentar nas finanças.
Preparei esta ida ao médico com cuidado. Pus de parte os exames que já tinha feito para levar. Pedi relatórios nos dois hospitais onde tinha sido acompanhado. Marquei a consulta com um médico da especialidade que trata a minha doença. Com um médico neurologista. Um médico que uma amiga da família me tinha recomendado.
Pensei se não seria excessivo ir a esse médico só por causa de um atestado médico. Mas não sabia de nenhum outro. E achei até conveniente para não ter atritos desnecessários com um outro qualquer. Eu só queria um atestado.
Então no dia e à hora marcados compareci na clínica para a consulta. A minha irmã levou-me. Eu só levei as canadianas. Eram suficientes para me meter no carro. Tinha telefonado para a clínica para perguntar se tinham cadeiras de rodas. Tinham.
O que tinha que dizer ao médico era muito pouco. "Tenho Esclerose Múltipla Progressiva Secundária. Tenho pelo menos uma incapacidade de 60%. Preciso de um atestado médico onde conste isto." Depois só tinha que apresentar ao médico os exames e os relatórios que levava e pôr-me à disposição dele para quaisquer exames que ele entesse fazer-me.
A coisa até foi mais simples. Para ele bastou-lhe o último relatório do último médico que me tinha acompanhado.
Se não me tivessem dito que o atestado médico tinha que ser actualizado eu nem tinha ido ao médico.
É verdade que no último relatório do último médico que me acompanhou não constava preto no branco qu eu tinha uma incapacidade de pelo menos 60%, Entre outras coisas só constava que eu, a dada altura, conseguia deambular 100 metros com o apoio de um par de canadianas e que, depois, piorei.
Mas não foi assim tão simples. Tive que explicar porque que é que estava ali. Porque não era normal. Porque o atendimento aos doentes com Esclerose Múltipla é feito nos hospitais e até está bem organizado. Era a opinião dele e eu estava ali por causa de um atestado médico e não para discordar dela. Mas tive que explicar porque é que estava ali. Iam fazer 3 anos que não era acompanhado em lado nenhum. Quando me diagnosticaram a Esclerose Múltipla eu já tinha Esclerose Múltipla Progressiva Secundária. E impingiram-me um tratamento para Esclerose Múltipla Remitente Recorrente que fiz durante dois anos e que só me retirou "qualidade de vida". Pior do que isso, fui agredido continuadamente pela médica neurologista que me acompanhou. Depois mudei de hospital só para continuar a ser acompanhado e fui hostilizado pelo médico neurologista que lá me acompanhou. Podia ter dito que continuei a ser agredido. Que agressão continuada anterior não parou. Ele mostrou-se disponível para me encaminhar para outro hospital para continuar a ser acompanhado. Mas para quê?! O que interessa ser-se acompanhado quando não se é tratado? Estão sempre a aparecer novos medicamentos. Disse ele. Usei um argumento forte para não alongar uma conversa sem utilidade. Usei-o com receio de o ferir. Não estou interessado é nada menos do que a cura da minha doença. E a isto ele respondeu-me com um Nós temos tudo o que tem comprovação científica.
Possivelmente, como tantos outros, vou morrer sem que a medicina convencional tenha qualquer cura para a minha doença. Não vai haver cura. As farmacêuticas já ganham muito dinheiro com tratamentos que não se sabe bem o que fazem. Não há mercado para curas. os estados não têm dinheiro para curas pelo preço que as farmacêuticas exigiriam por ela. A cura da Hepatite C está aí para amostra.
Mas é possível que venham a precisar de cobaias humanas para testar algum tratamento para Esclerose Múltipla Progressiva Secundária. Não me iludo com isso, Já sei que tratamentos não são curas. Não são até senão nada. Não me ofereço para cobaia da indústria farmacêutica. Não acredito no que estão a fazer. Estão só a ganhar dinheiro com a desgraça alheia.
Eu queria só um atestado médico. Acabei por ter o atestado. Mas não precisava que, pela enésima vez, me tentassem vender este peixe.
Comentários
Enviar um comentário